Porte de armas para o cidadão de bem e a falácia do discurso de que a lei protege bandidos

Em uma sociedade que regulamentou o porte de armas de fogo para o “cidadão de bem”, Márcio preparava-se para ir ao trabalho; selecionou a roupa adequada, tomou um banho demorado, pois se levantara cedo de seu leito, perfumou-se, alimentou-se, municiou sua arma e partiu.

Ao sair de casa, lembrou que talvez tivesse esquecido o celular, assim, apalpou os bolsos. Ufa, ele estava ali, no bolso esquerdo, a carteira no bolso de trás da calça, tudo estava em ordem.

O trânsito estava lento, o que oportunizou ao nosso “cidadão de bem” alguns momentos de reflexão, acerca da vida honesta que elegera para si, e os frutos advindos de sua semeadura justa.

– Ora, o ser humano é dotado de liberdade para escolher o caminho a trilhar, de tal modo que, não existe determinismo, não importando qual sua condição social, todos devem agir de acordo com os bons costumes.

Na realidade, o discurso, “esquerdista”, causava repulsa em Márcio, que não conseguia entender por que alguém defenderia com unhas e dentes um delinquente que elegeu para si a marginalidade.

A vida de Márcio era repleta de certezas, pois que, nosso “cidadão de bem”, encontrou na palavra evangélica de seu templo religioso, o amparo celeste ao seu modo de ser e sentir, e a certeza da salvação em uma eternidade de bênçãos na glória de Deus.

Em contrapartida, encontrou também amparo divino aos seus preconceitos, haja vista, a certeza de que, os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.

O caminho para o trabalho seguia calmo, com serenidade de mãe, na glória de Deus, até que o trânsito fluiu, requerendo de Márcio, mais atenção ao volante, o que lhe impossibilitou maiores ponderações. Assim, ligou o som do automóvel.

De plano, deleitou-se com o louvor da manhã. Era um homem de Deus, era um eleito, estava na paz do senhor, Glória, a Deus!

Estacionou na vaga de sempre, e rumou para o trabalho, mais alguns metros e estaria no seu destino, pelo que, viu, caminhando em sua direção, um jovem, maltrapilho, em atitude suspeita.

Neste momento, sentiu o atrito da arma de fogo com o seu quadril, pois esquecera até então, que ela estava ali, consigo; seu instrumento de proteção de “homem de bem”.

Assim que o jovem aproximou-se, deu voz de assalto, empunhando uma arma de fogo, exigindo-lhe o par de calçados.

Perdeu – Perdeu – O tênis – Rápido!

A descarga de adrenalina e cortisol na corrente sanguínea de Márcio reduziu sua visão periférica, havendo, apenas, o jovem, infeliz, a sua frente, e nada mais.

Agachou-se e tirou os sapatos, entregando-os ao jovem, ao tempo em que pensava aflito, se perderia a sua vida por um maldito par de sapatos, pelas mãos de um delinquente qualquer…

Viu o sorriso de malfeitor no semblante do jovem, quando este tomou posse dos calçados, e, as pernas de Márcio estremeceram quando o delinquente, dando dois passos para trás, com a arma ainda em punho, baixou-a, dando fim à ação delituosa e iniciando a fuga, a pé.

Instantaneamente, quando o jovem deu as costas, Márcio, que até então, era a vitima, puxou sua arma e disparou três vezes contra o delinquente, que caiu, sem vida, imerso em uma poça de sangue, com o par de calçados ao lado esquerdo do corpo e, a arma de fogo, ao lado direito.

Nos noticiários, a manchete era: “cidadão de bem” reage a assalto e mata bandido.

O resultado do porte de armas para o cidadão de bem….

Márcio acabara de tirar uma vida por um par de sapatos.

Com toda a ação filmada por câmeras de segurança, acabaria, ainda, indiciado por homicídio doloso.

O ordenamento jurídico protege bandidos? Não. O ordenamento jurídico protege a vida, para que não matemos, por um par de calçados.

Por Nelson Olivo Capeleti Junior

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